domingo, 16 de junho de 2013

Transporte público deve ser público. Cidade não é empresa.



Quando se fala em transporte público, logo pensamos que o mesmo interessa apenas para pessoas que não têm alternativa que não seja essa.  Talvez seja esse o motivo do desprezo de parte da população que se traveste de democrática e defende manifestações desde que tudo seja mantido da forma como está (então é estranho que se tenha manifestações).
Um artigo da UOL mostra que 37 milhões de brasileiros estão excluídos do sistema de transporte público. E isso, da minha parte, já foi identificado há algum tempo, um exemplo foi quando encontrei um amigo desempregado morador de periferia que foi e voltou do Centro da cidade (bem longe) porque com R$ 5,60 (preço para ir e voltar de ônibus) ele compraria toda a mistura da noite da família, uma vez que, no caso dessa família, ele estava sem outra fonte de renda porque a esposa faleceu na fila do SUS pelo atendimento precário da UBS do bairro e no dia que passou mal não tinha condições pagar a tarifa e ir ao hospital.
Por essas e outras razões, a contestação acerca da concepção de transporte público deve ser um debate central. A mobilidade urbana está diretamente ligada ao direito à cidade de todo cidadão e o seu acesso à educação, saúde, lazer, cultura e ao trabalho. Esse momento tem uma importância fundamental, pois, já que as pessoas legitimamente tomaram as ruas, é necessário que as autoridades assumam uma posição concreta perante essas reivindicações.
Muitos, como o governador Geraldo Alckimin, comentam sobre o viés político dessas marchas. Sim, o nosso governador teve um surto de lucidez e acertou na mosca. Há diferenças entre os participantes dos movimentos, desde a escolha de partidos políticos ou não até as vertentes ideológicas e a forma como eles se manifestam, mas eles encontram unidade na revolta que cada um tem com a política da forma como está sendo tocada. Não é não gostar de política, muito pelo contrário, uma manifestação é para construir política e romper com algo que, sempre que toma grandes proporções, está incomodando as pessoas há muito tempo e encontrou o seu estopim (no caso atual, o aumento recorrente das tarifas).
Nesse sentido, o descaso com o transporte público mostra que esse modelo no qual a iniciativa privada cuida da gestão do transporte e a forma como o mesmo funcionará está falido e não atende mais as expectativas da população. E quando se fala da população, podemos colocar nesse rol todas as classes sociais, uma vez que é um absurdo alguém reclamar no trânsito e do direito de ir e vir quando está ocorrendo uma manifestação, principalmente quando o que leva essas pessoas a rua é o desejo de que se tenha outra política de mobilidade urbana.



A cidade de Franca é um bom exemplo disso, pois, enquanto muitos batem palma para a construção do viaduto que leva o nome da mãe do ex-prefeito, o transporte público piorou bastante nos últimos tempos e a tarifa aumentou bem acima da inflação. E como o número de carros na cidade de Franca cresceu de forma assustadora, percebe-se, com o mínimo de senso de realidade, que não são viadutos que resolverão o problema do trânsito e, para aqueles que pensam que são os protestos que atrapalham o direito de ir e vir, podemos afirmar, sem muito receio, que o impedimento do direito de ir e vir está diretamente relacionado à tarifa do transporte público e à qualidade do mesmo.




O poder público precisa urgentemente assumir a responsabilidade do transporte público, com participação efetiva da população, e, desse modo, pensar a cidade. A cidade não pode ser planejada por empreiteiras e empresas de ônibus que financiam campanhas políticas. Quando se fala em mobilidade urbana, toda a dinâmica da cidade está envolvida, a forma como ela funciona e quem tem liberdade para ir a determinados lugares. E isso só será alcançado sob determinadas condições: o transporte coletivo deve ser de qualidade, confortável, extremamente acessível e abundante. Com certeza, no caso de Franca, não será a empresa São José que irá nos fornecer isso. Por essas e outras sou favorável ao Tarifa Zero, que já foi mostrado como sendo viável por especialistas. A nossa concepção de cidade precisa ser radicalmente modificada.
E só para finalizar, deve ficar claro que pouca gente é a favor de destruição em manifestações, porque o movimento perde a confiança da população, mas a maioria esmagadora dos jovens está na rua pacificamente reivindicando os seus direitos. E mais: a “baderna” gerada por essa pessoas é algo muito pequeno perto da violência que os trabalhadores sofrem todos os dias por não terem outra alternativa que não seja utilizar um transporte público caro e da pior qualidade. A imprensa defende tanto o patrimônio das empresas de ônibus, mas eu nunca vi uma dessas empresas voltar atrás por causa dos prejuízos “destruição” ou por serem coerentes e bondosas. Tem que haver pressão popular, não vejo outra saída.
Salve, salve todos os jovens lutadores da América Latina!

Nenhum comentário:

Postar um comentário