domingo, 27 de janeiro de 2013

Sobre a tragédia de Santa Maria


A tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, não passou e nem passará invisível aos olhos de ninguém. O papel que a mídia vem cumprindo, nesse sentido, é o de transformar essa catástrofe num grande espetáculo dramático. Alguns vão tentar me convencer de que a imprensa não tem culpa e eles apenas vendem o que o povo quer assistir, mas esse é outro debate que não deve ser realizado de maneira rasteira como fazem alguns. Não estou negando o drama e nem a dor de todos, inclusive a minha, ao ver tantos jovens estudantes perderem suas vidas de forma tão cruel e inesperada. Sou totalmente solidário à causa.
De todo modo, por algum motivo, parece que não estamos acostumados com a morte em nossa sociedade, a qual se faz tão presente, principalmente entre os mais indefesos que, como já dizia Paulo Freire, tiveram a sua humanidade roubada.  No estado de São Paulo, enfrentamos um genocídio de pobres e negros, além de massacres como o de Pinheirinho e agora o do Assentamento Milton Santos, que já está anunciado. Os índios Guaranis-Kaiowás sofrem há tanto tempo com a violência dos latifundiários e também tiveram uma relativa visibilidade recentemente. Diariamente, pessoas morrem sem atendimento médico nos corredores dos hospitais, enquanto o país investe em grandes eventos para estrangeiros e desviam milhões para o bolso das empreiteiras. Os usuários de drogas e moradores de rua são violentados todos os dias em todo o país. Todavia, nada disso é visto diante da nossa cegueira para algumas questões.
Isso acontece porque os casos acima não envolvem pessoas inseridas em nossa sociedade de mercado. As vítimas aí são os outros. São os esfarrapados do mundo. Gente que não tem o nosso olhar atento e nem o nosso cuidado. Pessoas com as quais não temos nenhuma obrigação. É uma verdade que nós não queremos enxergar ou uma realidade na qual não temos um verdadeiro pertencimento por não se tratarem dos nossos. Entretanto, esse caso de Santa Maria mostra como a nossa concepção de coletividade pode acabar acertando de forma cruel os setores que se sentem mais imunes às barbáries de nossa sociedade que transforma tudo em mercadoria.
Sem pagar ninguém entra e ninguém sai. Essa é a lógica. Os seguranças não mantêm as pessoas seguras, apenas defendem a propriedade e evitam confusões muitas vezes com violência. Não acho que a maior culpa seja dos seguranças, pois são trabalhadores que fazem “bicos” noturnos para sobreviverem como vários policiais, professores, médicos e outros profissionais que buscam um salário decente. Enfim, entre tantas tragédias, essa nos tocou mais pela nossa sensação de pertencimento, mas, por outro lado, devemos fazer uma reflexão sobre a mercantilização da vida humana e se o lucro realmente justifica quase tudo, como vemos hoje. E, para encerrar, poderíamos ter a mesma sensibilidade ao ver pessoas que lutam por terra, trabalho e moradia, as quais também são mortas cruelmente todos os dias.
EM LUTO PELOS JOVENS DE SANTA MARIA. EM LUTA PELA VIDA DAS PESSOAS (DE TODAS!).

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