sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Ignorante é o motorista de ônibus



Ignorante não é a pessoa que prega de forma veemente que o mundo é justo e que quem quer consegue. Como se o filho do Eike Batista ou até mesmo de uma família de “classe média” não tivesse milhares de vezes mais chances de se dar bem na vida comparando com um favelado.
Ignorante não é a pessoa que diz “tá vendo, ele era pobre e se deu bem na vida”, como se transformar exceções em regras fosse honesto.
Ignorante não é a pessoa que pede o fim do Bolsa Família alegando que é um incentivo ao ócio, mas não questiona em nenhum momento o lucro dos bancos e de outros setores que consomem de verdade os recursos públicos.
Ignorante não é quem intitula o PT como um governo de esquerda, mesmo sabendo (ou não) que os bancos, as empreiteiras e outros chefes do capitalismo internacional deitam e rolam de ganhar dinheiro por conta de suas políticas (e você achando que o déficit é por conta dos programas que “beneficiam” os pobres).
Ignorante não é a pessoa que insiste em dizer que liberdade de opinião é a liberdade de ofender a dignidade de quem quer que seja.
Ignorante não é quem assiste a notícia de um protesto no jornal e fica revoltado com os vândalos, como se o vandalismo gerasse mais problemas sociais do que os motivos pelos quais as pessoas saíram às ruas, e como se a reportagem que dá valor apenas aos atos de vandalismo não fosse desonesta.
Ignorante não é quem afirma que o machismo não existe e chega até a dizer que a mulher também tem culpa pelo estupro e que a Fran foi culpada por ter um vídeo íntimo vazado na internet. Como se o ataque à vítima fosse a melhor forma de combater esses absurdos.
Ignorante não é a pessoa que fala em “ditadura gay”, como se a gente vivesse num mundo em que é tranquilo assumir a sexualidade e como se um homossexual não sofresse violência todos os dias, em forma de piadas, olhares ou até mesmo física.
Ignorante não é quem diz que pessoas de classe média não podem ser socialistas, como se a preocupação com o outro fosse um absurdo e uma incoerência sem limites.
Ignorante não é a pessoa que afirma, no auge da sua sabedoria, que na época da ditadura não havia corrupção, como se houvesse algum tipo de liberdade de fiscalização do poder público na época.
Ignorante não é quem diz “sou contra todos os partidos”, mas não sabe que a primeira medida de todas as ditaduras é acabar com todos os partidos.
Ignorante não é quem está extremamente revoltado por que o PS4 é 10 vezes mais caro aqui do que nos EUA, mas nunca contestou os latifúndios do Brasil quando fala em desenvolvimento econômico.
Ignorante não é quem diz que “bandido bom é bandido morto” e defende a democracia ao mesmo tempo, como se o direito de ser julgado e do contraditório não fosse um avanço democrático muito importante.
Ignorante não é quem reclama do trânsito quando está tendo protesto por melhorias no transporte público. Como se o caos no trânsito não fosse gerado, coincidentemente, pela falta de investimentos em transporte coletivo.
Ignorante mesmo são os motoristas da empresa ônibus urbano da minha cidade que correm e freiam bruscamente só porque precisam cumprir horário para não serem penalizados.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A Casa do Povo é uma coisa, a Câmara dos Vereadores de Franca é o oposto disso


Mais uma vez, alguns vereadores de Franca mostraram total despreparo e descaso com os cidadãos que resolvem se manifestar. Já não bastasse toda a energia que foi consumida contra o terrorista da pizza, que lançou uma pizza no plenário pelas portas laterais (as quais estão fechadas para prevenir qualquer tipo de violência como essa). Hoje, os agredidos da vez, com algo bem pior e mais indigesto que pizza, foram os servidores municipais da saúde pública, cuja reivindicação era a regularização da jornada de trabalho em 30 horas semanais.
Laercinho-PP foi o primeiro a se mostrar contra e chantageou descaradamente os trabalhadores ali presentes, dizendo em alguns momentos que ia votar a favor e em outros que ia votar contra a justa vontade dos presentes (que as atitudes do vereador dependem das oportunidades é óbvio há muito tempo, pois esse mesmo vereador chegou a falar que, caso a Delegada Graciela fosse eleita, ele não se sentiria constrangido em ser da base aliada dela), tudo porque recebeu uma merecida vaia logo no início do seu discurso patético. Chegou a falar, inclusive, que não dá pra trabalhar sob pressão (pra todo mundo ver o quanto a presença do povo na “casa do povo” incomoda). Ora, até onde eu sei, todas as conquistas do povo brasileiro se deram por meio de muita pressão popular e luta, não vieram da boa vontade de uma meia dúzia de engravatados. Um exemplo claro disso é a CEI do Transporte Público de Franca, que só saiu após muito barulho, mesmo assim, o que não faltou nesse dia foi manobra suja por parte dos vereadores da base aliada do prefeito.
Se alguém achou que as agressões verbais iriam se encerrar com o Laercinho estava muito enganado. Marco Garcia-PPS foi extremamente arrogante em sua fala, chamou os servidores de massa de manobra, como se os manifestantes não soubessem o motivo pelo qual estavam lá. Além disso, ofendeu um manifestante idoso, que reivindicava essa causa justa, o chamando de traidor e que perdeu seu cargo no governo por traição, por isso não estava numa boa dentro do governo. E com certeza fazer parte de um governo não é problema para o Marco Garcia. Não duvido nem um pouco que ele jamais trairia o prefeito e as pessoas pelas quais ele presta serviço com seu mandato. E os servidores municipais, será que ele trairia? Ah, meus caros, aí é outra história.
Após todas as patifarias Para piorar a situação, no meio do discurso, Marco Garcia alegou não ter rabo-preso com ninguém e que seu cordão umbilical era preso apenas a sua mãe. Assim, um manifestante e companheiro que estava ao meu lado, Thiago, apenas disse o seguinte para o vereador: “acho que o seu cordão está mais preso ao prefeito do que a sua mãe”. E Marco Garcia ainda afirmou que o prefeito era o seu amigo (aliás, com um amigo desse, nem de advogado o prefeito precisa). Incomodado com a consideração do manifestante, o assessor do vereador saiu do plenário e partiu para cima do Thiago, mas não houve confronto porque o ignorante foi contido.
Marco Garcia chegou a ameaçar o manifestante também, alegando que Thiago ofendeu a mãe dele, numa clara distorção do que foi falado. Quer dizer então que vereador pode discursar por vários minutos ofendendo e humilhando os servidores públicos e ninguém pode se revoltar?
E, no final, tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes. O prefeito vai ter que autorizar para que a votação ocorra e os funcionários da saúde saíram humilhados, vítimas do autoritarismo, da falta de vontade política e da arrogância dos vereadores pertencentes à base aliada do prefeito ou pertencentes ao prefeito, como preferirem.

Essa é “casa da povo” de Franca: subserviente ao dono da cidade, como o Marco Garcia mesmo disse em um infeliz comparação entre a cidade e uma empresa, a qual dizem por aí que é muito bem administrada; só que não!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

então não tem mais preconceito né...


Como eu assisto futebol desde criança, acho que ainda não entendi a relação que há entre um bom jogador e a sua sexualidade, isto é, não consigo compreender a razão pela qual um jogador deve ser expulso ou punido pelo seu time por ter dado um selinho no amigo em seus momentos particulares.
Aliás, não precisa ser tão radical, pois, conforme disse um “sábio” torcedor, o Sheik deve se retratar e pedir desculpas à torcida. E se perguntar para esse torcedor se o que ele fez foi ou não uma manifestação de ódio e intolerância, ele jura que não. Aham, senta lá, Cláudia... quem deveria pedir desculpas é esse torcedor estúpido.
Se as mulheres e os homossexuais não jogam futebol creio eu que isso muito se deve ao caráter opressor que essa modalidade esportiva possui (a manifestação de alguns torcedores corinthianos é a prova disso). Que menino criado em berço machista não estranharia ao ver uma menina querendo entrar no seu time no recreio da escola? Não adianta alguém afirmar que acharia normal. Ninguém acharia normal. Aprendemos, desde cedo, que futebol é lugar de “macho-alpha”.
E é por essas e outras que não há motivos para ter medo das crianças aprenderem a respeitar a diversidade sexual o quanto antes. Aliás, se fosse para fazer piadinhas preconceituosas, deveríamos fazer com quem tem tanto medo assim de que a liberdade de manifestação amorosa incentive cada vez mais pessoas a assumirem a sua sexualidade (talvez seja medo do recalque). Qual o problema em viver pacificamente com isso?
Você não precisa morar numa tribo para respeitar os índios. Você não precisa ser mulher para respeitar as mulheres. Você não precisa ser um cachorro para respeitar os animais. Mas você precisa ter consciência e bom senso para respeitar a felicidade das pessoas quando elas não estão interferindo na sua felicidade, sem querer dar o inferno na terra para quem não segue a sua cartilha fundamentalista.
Ah, um selinho entre pessoas do mesmo sexo interfere na sua felicidade? Desculpe-me, camarada, mas você é uma pessoa preconceituosa!
Se alguém ainda fala em “ditadura gay”, que o preconceito acabou, que os gays querem privilégios, que está na moda ser homossexual, entre outras frases difundidas no senso comum machista, creio eu que esse fato é mais uma prova de que o preconceito ainda está vivo e, ainda mais, de forma escancarada (só não vê quem não quer).

A prova desse preconceito enraizado é essa foto que eu divulguei no meu facebook em defesa e apoio ao Sheik e não fui muito bem recebido por torcedores palmeirenses pelo Brasil afora:

E aos palmeirenses machos-alpha revoltados, vão ter que aceitar sim a minha manifestação, porque sou palmeirense desde que nasci. E não sou homofóbico como muitos.

domingo, 16 de junho de 2013

Transporte público deve ser público. Cidade não é empresa.



Quando se fala em transporte público, logo pensamos que o mesmo interessa apenas para pessoas que não têm alternativa que não seja essa.  Talvez seja esse o motivo do desprezo de parte da população que se traveste de democrática e defende manifestações desde que tudo seja mantido da forma como está (então é estranho que se tenha manifestações).
Um artigo da UOL mostra que 37 milhões de brasileiros estão excluídos do sistema de transporte público. E isso, da minha parte, já foi identificado há algum tempo, um exemplo foi quando encontrei um amigo desempregado morador de periferia que foi e voltou do Centro da cidade (bem longe) porque com R$ 5,60 (preço para ir e voltar de ônibus) ele compraria toda a mistura da noite da família, uma vez que, no caso dessa família, ele estava sem outra fonte de renda porque a esposa faleceu na fila do SUS pelo atendimento precário da UBS do bairro e no dia que passou mal não tinha condições pagar a tarifa e ir ao hospital.
Por essas e outras razões, a contestação acerca da concepção de transporte público deve ser um debate central. A mobilidade urbana está diretamente ligada ao direito à cidade de todo cidadão e o seu acesso à educação, saúde, lazer, cultura e ao trabalho. Esse momento tem uma importância fundamental, pois, já que as pessoas legitimamente tomaram as ruas, é necessário que as autoridades assumam uma posição concreta perante essas reivindicações.
Muitos, como o governador Geraldo Alckimin, comentam sobre o viés político dessas marchas. Sim, o nosso governador teve um surto de lucidez e acertou na mosca. Há diferenças entre os participantes dos movimentos, desde a escolha de partidos políticos ou não até as vertentes ideológicas e a forma como eles se manifestam, mas eles encontram unidade na revolta que cada um tem com a política da forma como está sendo tocada. Não é não gostar de política, muito pelo contrário, uma manifestação é para construir política e romper com algo que, sempre que toma grandes proporções, está incomodando as pessoas há muito tempo e encontrou o seu estopim (no caso atual, o aumento recorrente das tarifas).
Nesse sentido, o descaso com o transporte público mostra que esse modelo no qual a iniciativa privada cuida da gestão do transporte e a forma como o mesmo funcionará está falido e não atende mais as expectativas da população. E quando se fala da população, podemos colocar nesse rol todas as classes sociais, uma vez que é um absurdo alguém reclamar no trânsito e do direito de ir e vir quando está ocorrendo uma manifestação, principalmente quando o que leva essas pessoas a rua é o desejo de que se tenha outra política de mobilidade urbana.



A cidade de Franca é um bom exemplo disso, pois, enquanto muitos batem palma para a construção do viaduto que leva o nome da mãe do ex-prefeito, o transporte público piorou bastante nos últimos tempos e a tarifa aumentou bem acima da inflação. E como o número de carros na cidade de Franca cresceu de forma assustadora, percebe-se, com o mínimo de senso de realidade, que não são viadutos que resolverão o problema do trânsito e, para aqueles que pensam que são os protestos que atrapalham o direito de ir e vir, podemos afirmar, sem muito receio, que o impedimento do direito de ir e vir está diretamente relacionado à tarifa do transporte público e à qualidade do mesmo.




O poder público precisa urgentemente assumir a responsabilidade do transporte público, com participação efetiva da população, e, desse modo, pensar a cidade. A cidade não pode ser planejada por empreiteiras e empresas de ônibus que financiam campanhas políticas. Quando se fala em mobilidade urbana, toda a dinâmica da cidade está envolvida, a forma como ela funciona e quem tem liberdade para ir a determinados lugares. E isso só será alcançado sob determinadas condições: o transporte coletivo deve ser de qualidade, confortável, extremamente acessível e abundante. Com certeza, no caso de Franca, não será a empresa São José que irá nos fornecer isso. Por essas e outras sou favorável ao Tarifa Zero, que já foi mostrado como sendo viável por especialistas. A nossa concepção de cidade precisa ser radicalmente modificada.
E só para finalizar, deve ficar claro que pouca gente é a favor de destruição em manifestações, porque o movimento perde a confiança da população, mas a maioria esmagadora dos jovens está na rua pacificamente reivindicando os seus direitos. E mais: a “baderna” gerada por essa pessoas é algo muito pequeno perto da violência que os trabalhadores sofrem todos os dias por não terem outra alternativa que não seja utilizar um transporte público caro e da pior qualidade. A imprensa defende tanto o patrimônio das empresas de ônibus, mas eu nunca vi uma dessas empresas voltar atrás por causa dos prejuízos “destruição” ou por serem coerentes e bondosas. Tem que haver pressão popular, não vejo outra saída.
Salve, salve todos os jovens lutadores da América Latina!

segunda-feira, 11 de março de 2013

Deputado Marco Feliciano, renuncie já!




Como já coloquei em minha entrevista ao Comércio da Franca, o ato de ontem não teve nenhum cunho religioso. A crítica, em todos os momentos, foi política, inclusive havendo um minuto de silêncio em respeito à religião e aos fieis que lá estavam. Se a manifestação tivesse outro rumo que não fosse o político, eu seria o primeiro a me retirar.
O deputado-pastor Marco Feliciano teve a pachorra de citar o Martin Luther King (“o que me preocupa não é o grito dos maus, é o silêncio dos bons”) ao criticar a nossa manifestação. O silêncio dos bons é algo que me preocupa também. O silêncio dos negros que ainda estão excluídos da sociedade, o silêncio dos homossexuais que são ofendidos pela orientação sexual, o silêncio das mulheres que são violentadas todos os dias devido ao machismo que ainda está difundido na nossa sociedade e o silêncio dos fieis que buscam paz espiritual e escutam esse show de falácias que o pastor Feliciano destoa sem nenhum tipo de pudor. E com esse sujeito como Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, certamente, todos esses supracitados continuarão fadados ao silêncio.
O que está em jogo não é a liberdade religiosa e, por mais que o deputado tente modificar o foco das manifestações, acho que, apesar dele ser mestre na arte de criar inverdades, dessa vez ele não sairá de forma tão simples com as suas calúnias. Até as filhas ele utilizou como forma de comoção aos fieis. O único ato de violência que teve até o momento foi o dele, que como homem público utilizou a sua influência de representante do povo para agredir setores que já sofrem todos os dias em nossa sociedade.
Nesse momento, além de renunciar o novo cargo, o deputado deveria se explicar e aceitar o julgamento por todas pelas declarações feitas contra os negros e homossexuais, as quais não podem ser resolvidas com um simples golpe de retórica de quem foi mal interpretado (não somos inocentes).  
Esperamos que todas as acusações contra a pessoa dele (inclusive a de estelionato) sejam devidamente investigadas, que ele não seja covarde e dê explicações públicas, principalmente, aos representantes dos movimentos sociais de segmentos negros, homossexuais e feministas, e que RENUNCIE O CARGO JÁ, pois você NÃO REPRESENTA.
Vamos continuar na luta contra a figura do Marco Feliciano e, por essa razão, terça-feira estaremos na Câmara dos Vereadores para exigir uma Moção de Repúdio ao deputado. Detalhe: para ir lutar por seus direitos nem precisa passar a senha do cartão de crédito.
MACHISMO, RACISMO E HOMOFOBIA NÃO PASSARÃO!

domingo, 27 de janeiro de 2013

Sobre a tragédia de Santa Maria


A tragédia na Boate Kiss, em Santa Maria, não passou e nem passará invisível aos olhos de ninguém. O papel que a mídia vem cumprindo, nesse sentido, é o de transformar essa catástrofe num grande espetáculo dramático. Alguns vão tentar me convencer de que a imprensa não tem culpa e eles apenas vendem o que o povo quer assistir, mas esse é outro debate que não deve ser realizado de maneira rasteira como fazem alguns. Não estou negando o drama e nem a dor de todos, inclusive a minha, ao ver tantos jovens estudantes perderem suas vidas de forma tão cruel e inesperada. Sou totalmente solidário à causa.
De todo modo, por algum motivo, parece que não estamos acostumados com a morte em nossa sociedade, a qual se faz tão presente, principalmente entre os mais indefesos que, como já dizia Paulo Freire, tiveram a sua humanidade roubada.  No estado de São Paulo, enfrentamos um genocídio de pobres e negros, além de massacres como o de Pinheirinho e agora o do Assentamento Milton Santos, que já está anunciado. Os índios Guaranis-Kaiowás sofrem há tanto tempo com a violência dos latifundiários e também tiveram uma relativa visibilidade recentemente. Diariamente, pessoas morrem sem atendimento médico nos corredores dos hospitais, enquanto o país investe em grandes eventos para estrangeiros e desviam milhões para o bolso das empreiteiras. Os usuários de drogas e moradores de rua são violentados todos os dias em todo o país. Todavia, nada disso é visto diante da nossa cegueira para algumas questões.
Isso acontece porque os casos acima não envolvem pessoas inseridas em nossa sociedade de mercado. As vítimas aí são os outros. São os esfarrapados do mundo. Gente que não tem o nosso olhar atento e nem o nosso cuidado. Pessoas com as quais não temos nenhuma obrigação. É uma verdade que nós não queremos enxergar ou uma realidade na qual não temos um verdadeiro pertencimento por não se tratarem dos nossos. Entretanto, esse caso de Santa Maria mostra como a nossa concepção de coletividade pode acabar acertando de forma cruel os setores que se sentem mais imunes às barbáries de nossa sociedade que transforma tudo em mercadoria.
Sem pagar ninguém entra e ninguém sai. Essa é a lógica. Os seguranças não mantêm as pessoas seguras, apenas defendem a propriedade e evitam confusões muitas vezes com violência. Não acho que a maior culpa seja dos seguranças, pois são trabalhadores que fazem “bicos” noturnos para sobreviverem como vários policiais, professores, médicos e outros profissionais que buscam um salário decente. Enfim, entre tantas tragédias, essa nos tocou mais pela nossa sensação de pertencimento, mas, por outro lado, devemos fazer uma reflexão sobre a mercantilização da vida humana e se o lucro realmente justifica quase tudo, como vemos hoje. E, para encerrar, poderíamos ter a mesma sensibilidade ao ver pessoas que lutam por terra, trabalho e moradia, as quais também são mortas cruelmente todos os dias.
EM LUTO PELOS JOVENS DE SANTA MARIA. EM LUTA PELA VIDA DAS PESSOAS (DE TODAS!).

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

SERÁ QUE ELES AMAM AO PRÓXIMO COMO A SI MESMOS?


O protesto dos LGBTs contra o movimento Tradição, Família e Propriedade (TFP) em Curitiba deve ter deixado muita gente estupefata. Ora, mas será que a revolta tinha o simples objetivo de acabar com alguma religião? É óbvio que não.
Não sou a favor que se retire a liberdade das pessoas, desde que a dignidade dos outros seja respeitada. Em seu íntimo, qualquer um tem o direito de pensar o que quiser a respeito da homossexualidade, até porque toda luta contra qualquer tipo de preconceito enraizado em nossa sociedade é pedagógica e não se efetivará num piscar de olhos. A cada dia devemos nos educar para não termos atitudes machistas, classistas, racistas, homofóbicas, entre outros tipos de preconceitos culturalmente criados.
Eu sou cristão e me sinto bem à vontade em dizer o seguinte: alguns fiéis não se contentam em tomar as decisões para a sua vida e passam a querer julgar e decidir o rumo da vida de outras pessoas, como se, de uma hora para outra, o fato de crer em Cristo os desse o direito de se transformar em Deus. E vamos ser bem sinceros, para quem acredita no mesmo Cristo que eu, creio que hoje ele daria às mãos aos homossexuais, aos negros, aos presidiários e à todos os outros que estão deixados de lado nessa nossa sociedade de mercado e estruturalmente excludente.
O TFP defende e sempre defendeu tudo o que há de mais conversador em nossa sociedade, como o Golpe Militar de 1964. Enfim, é muito bom saber que há uma resistência enorme contra esse tipo de movimento que legitima a violência contra as ações libertadoras do ser humano. Vamos esperar que esse cristianismo seletivo - que não se movimenta quando debatemos o trabalho escravo e exploratório, a desigualdade social, a fome e outras mazelas - seja combatido. Não precisamos de mais pessoas para julgar os já excluídos, mas sim de solidariedade, justiça social e de gente que ame ao próximo (com quem quiser e da forma que quiser) como a si mesma.