quinta-feira, 17 de maio de 2012

As greves nas universidades federais



Quando algum serviço público irá parar parcial ou totalmente devido a uma greve, é de praxe que alguns logo pensem: “pronto, me ferrei!”. Ninguém precisa achar legal fazer provas em pleno Natal ou ver o serviço de transporte público, que já é precário, praticamente parado. Esse é o pensamento individualista, típico em nossa sociedade. Os verdadeiros responsáveis pelos transtornos ocasionados pelas paralisações não são os grevistas, mas quem provocou a situação de calamidade nos serviços públicos, de tal forma que a greve se mostrou o melhor caminho a ser seguido por quem almeja melhorias e mais respeito enquanto trabalhador.
Creio que o desafio da sociedade moderna, nesse sentido, é saber olhar além desses fatos isolados e, acima de tudo, compreender de que forma devemos analisar todas essas manifestações. Para isso, devemos deixar de lado alguns dogmas que a imprensa nos coloca "goela abaixo" de forma ditatorial. Nenhum grevista faz greve por diversão. Nenhum usuário de crack usa drogas porque é “maneiro” e “descolado”. Nenhum mendigo está na rua porque acha melhor pedir dinheiro do que ser rico e ter que trabalhar. Nenhum desses e outros fatos podem ser olhados e analisados de modo isolado, sem pensar em aspectos políticos, econômicos e sociais.
Apenas seres humanos inquietos e progressistas conseguem entender a fundo essas questões, porém não como algo inexorável; digo a respeito do que precisa e deve ser mudado, simplesmente pelo fato de ser imoral. Não falo dos oprimidos pelo sistema, mas sim da imoralidade e do cinismo de quem nos rouba a humanidade através da exploração do trabalho, dos impostos mal destinados, da corrupção e de tantas outras formas de injustiças, as quais algumas vezes são amparadas pela lei (até porque a lei nem sempre é justa, daí a nosso dever cívico de sempre lutar por mudanças).
Ressalto que a imprensa, muitas vezes, dá a sua investida contra os grevistas, entrevistando os prejudicados com a paralização de algum tipo de serviço. Nesse ponto, o nosso papel seria realmente lutar para que não houvesse mais greves. Para tanto, ao invés de culpar quem resolveu protestar por melhores benefícios, deveríamos nos mobilizar para pressionar quem não está concedendo os tais, pois, na verdade, a falta de verbas tem uma única e simples explicação: a gulodice da minoria insaciável brasileira.
As greves que estão se insurgindo nas universidades federais brasileiras devem ser vistas com bons olhos por todos, principalmente pelos alunos, os quais são diretamente afetados pela exploração do professor e pelo sucateamento das universidades, cujas causas se devem a lógica neoliberal intensificada no governo Dilma, que vem promovendo diversos cortes nas verbas da educação, da saúde e de outros direitos fundamentais. Os alunos devem sempre ter em mente o seguinte: quando os seus parentes estiverem na praia e você estiver estudando, a culpa não é dos grevistas, isso se deve aos nossos governantes. No Brasil, adoramos encontrar "bodes expiatórios" quando há algum erro, por isso a impunidade dos poderosos continua, as desigualdades sociais ainda são enormes e continuamos vivendo num país rico e miserável. Tudo isso, porque não percebemos que o caos tem caráter sistêmico. Nesse sistema, a sociedade deve promover muitas lutas para conquistar o mínimo de direitos, mesmo quando estes estão previstos na Constituição.
Se o povo não luta radicalmente a favor dos seus direitos, ninguém irá concedê-los por bondade (principalmente os que estão e já estiveram no poder). Por isso, quanto mais radical formos, mais conquistaremos, por outro lado, a nossa condescendência, apenas manterá as coisas estáticas, isto é, favorecerá quem já está sendo beneficiado por todas essas mazelas. Cabe a nós, abandonar e ignorar o discurso fatalístico, pregador da "morte da história", o qual diz que "as coisas são assim e nada podemos fazer, a não ser rezar e seguir em frente". Essa ideia é desonesta, imoral e leviana. A história existe apenas porque somos capazes de modificar a nós mesmos e o mundo. Apenas quando percebermos que apenas com a nossa autonomia esse cenário será modificado, o cenário brasileiro começará a ter uma mudança substancial. Enquanto nem todos se levantaram rumo a esse objetivo, é necessário que, no mínimo, apoiem quem já se levantou, daí a necessidade de apoio às greves.
Como já dizia Paulo Freire, o mundo não é; o mundo está sendo. Diferentemente dos animais e das plantas, podemos transformar a nossa realidade, caso contrário, a história não existiria.
Um salve aos professores, funcionários e estudantes das universidades federais do nosso Brasil. Estamos com vocês!!!